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500 pessoas, uma planilha, e a fila que me fez construir um sistema do zero

Como um estacionamento lotado e uma planilha travando toda semana me fizeram criar o Parusya — um sistema de controle de presença por QR Code usado por mais de 300 pessoas semanalmente.

Era uma sexta-feira à noite. O estacionamento estava cheio, a música já tinha começado lá dentro, e do lado de fora tinha uma fila.

Não era fila de ingresso. Não era fila de bar. Era fila de chamada.

Alguém com um celular na mão, uma planilha do Google aberta, tentando digitar nomes enquanto 20 pessoas esperavam na calçada.

Eu estava nessa fila. E enquanto esperava, pensei: isso é exatamente o tipo de problema que eu aprendi a resolver.

O contexto que a maioria não tem

Sou coordenador do ministério de acolhimento de um grupo de jovens católicos. Faz anos que fazemos uma espécie de chamada na entrada das nossas reuniões semanais — não para marcar quem faltou, mas para registrar quem chegou. É um controle importante: lidamos com muitos menores de idade, e os pais precisam saber que seus filhos estão em segurança. Além disso, os dados geram estatísticas úteis: ranking de frequência, quem está sumindo, quem merece ser chamado para servir.

Antes de eu entrar, esse registro era feito com papel e caneta. Nome chegou, nome anotado. Simples, direto — e completamente sem escala.

Quando assumi o ministério, o primeiro upgrade foi óbvio: uma planilha Google. Pesquisa por nome, dados na nuvem, dois celulares editando ao mesmo tempo, fórmulas automáticas. Funcionou muito bem. Por anos.

Mas tem uma coisa que ninguém te conta sobre soluções tecnológicas:

Escala mata o que não foi feito pra escalar.

De 50 para 500

Quando a planilha tinha 100 linhas, era ótima. Com 400 linhas, ainda ok. Com mais de 1000 linhas e 500 pessoas chegando ao mesmo tempo numa sexta à noite — virou pesadelo.

Os sintomas apareceram aos poucos:

  • A planilha travava no meio do uso. O celular de alguém ficava carregando, o próximo na fila esperando.
  • Nomes digitados errado não eram encontrados na busca. "Gabriela" virava "Gabryela", e a busca retornava vazio.
  • Com dois celulares editando simultaneamente, às vezes um sobrescrevia o trabalho do outro.
  • Ninguém queria mais fazer a chamada. O cargo que deveria ser simples virou o mais estressante da noite.

Toda semana era a mesma cena: galera chegando animada pro evento, e travando numa fila de 20 minutos por causa de uma planilha.

E toda semana eu via aquilo acontecer pensando: existe uma solução melhor para isso.

A pergunta que mudou tudo

Um dia, parei de tentar consertar a planilha e me fiz uma pergunta diferente:

Como registrar a presença de centenas de pessoas em minutos, sem erro humano, com dados confiáveis?

Não "como melhorar a planilha". Não "como usar uma planilha melhor". A pergunta era sobre o problema de verdade — e o problema de verdade era que o modelo inteiro estava errado.

Digitar um nome é lento. É sujeito a erro. Não escala. E coloca o gargalo na mão de um ser humano que já está sobrecarregado.

A resposta que cheguei foi: QR Code.

Cada participante faz um cadastro único na plataforma. Recebe um QR Code pessoal. Na entrada do evento, a recepcionista escaneia o código com a câmera do celular. Meio segundo. Próximo.

Sem digitação. Sem erro. Sem fila.

Parusya

Foi assim que comecei a construir o Parusya — nome que vem do grego parousia, que significa presença, chegada, visita. Uma escolha deliberada: o nome do sistema é a própria coisa que ele registra.

O projeto acabou se tornando muito mais do que eu imaginava. O que começou como "vou fazer uma coisa melhor que a planilha" virou um sistema completo com:

  • Três perfis de usuário distintos (Participant, EventStaff, Organizer)
  • Autenticação JWT com criptografia RSA assimétrica
  • Múltiplos eventos simultâneos com check-ins independentes
  • Dashboard com gráficos de frequência em tempo real
  • Exportação de dados em XLSX
  • Deploy em produção com Cloudflare, Vercel e Railway

Mas isso é assunto para outro artigo.

O que importa aqui é o começo: um estacionamento, uma fila desnecessária, e a percepção de que o problema não era falta de tecnologia — era que a tecnologia errada estava sendo usada para o problema certo.

O que aprendi sobre resolver problemas reais

Projetos pessoais nascidos de problemas reais têm uma qualidade que projetos de faculdade raramente têm: consequências.

Quando a planilha trava, 20 pessoas ficam esperando na calçada. Quando o sistema tem um bug, alguém não consegue fazer check-in e a equipe de recepção entra em pânico. Quando os dados estão errados, o coordenador apresenta números equivocados pra liderança.

Essa pressão muda a forma como você pensa sobre código. Você para de perguntar "isso funciona no meu computador?" e começa a perguntar "isso funciona quando 100 pessoas chegam ao mesmo tempo num estacionamento com 3G fraco?"

São perguntas diferentes. E elas te tornam um engenheiro diferente.

O Parusya hoje processa mais de 1.000 check-ins por mês. Zero fila. Zero planilha. Zero estresse na entrada.

Tudo começou porque eu estava numa fila achando que não precisava estar.

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